Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

O homem dentro da casca - Radyr Gonçalves


Aquele homem dentro daquela enorme casca... Como uma casca de ovo. Ébrio, chamam-no “Pau-d´água”. Preso no seu mundo frio. Acorrentado no seu mundo feio. Fora do meio, às margens. Escrevia poesias nos muros privados, lia estrelas e sabia parte do futuro na borra do café; não tinha fé em nada. Subia e descia a escada do tempo procurando divisas, curvas... Nunca encontrou um norte. Aficionado por Kafka, amante das harpas, adulador das brisas, colecionador de silêncios. Guardava seus monstros. Estudava os signos da própria ignorância. Soube se perder no próprio labirinto de apotegmas.

Escafandro maldito! O homem dentro de um invólucro. Extasiado com o vazio escuro. Vida a luz de vela. Verme rastejante numa paralela absurda. Morte certa. Vida curta. Vento assombrado que bate na janela, todas as manhãs. Habitante de uma gaiola ilha. Profeta inapto, poeta nulo, cantor de não cantar. O homem dentro de uma cova.

Acostumou-se com esse universo inversivo. Fez pactos com as corujas, politizou-se com os carcarás... Alquimista inerte. Guerreiro inerme. Operador de máquinas em desuso.


O semeador de insônias sem propósitos. Fica lá, velando madrugadas, salgando luas, desenhando arrebóis, tecendo com artesania as tela dos amanhãs... Destarte, engana a turba que passa e o observa, subindo e descendo as escadarias da torre da ampulheta... O incrível é que ninguém percebe a casca que o reveste: a sua triste habitação.

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Radyr Gonçalves
© 2017
Tangará/RN


Comentários

Paty disse…
É uma bela poesia.
Digna de estudo.
Meu poeta preferido.
Radyr Gonçalves.
(Amo)