Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

Suicídio no campo de girassóis



O homem precisava encontrar um lugar para morrer. Pensou em morrer em um grande campo de girassóis. Ele amava os girassóis. Sonhava com aquilo como um religioso fanático sonha com o dia do juízo final. Ficava com aquilo na cabeça. O campo de girassóis. O sangue escorrendo entre as pétalas caídas. O vermelho e o amarelo. O homem se olhava em um grande espelho e ficava encenando. Afastava todas as nuvens com as mãos, deixava o céu limpo, azul, um azul mais fechado que o azul do céu que cobre nossas cabeças. Dois, três tons mais fortes na palheta de cores da sua imaginação. Seria um suicídio. Mas tinha que ser um suicídio cheio de belezas. Imaginava uma revoada de andorinhas, um verdadeiro Bird Ballet. Uma trilha sonora clássica, Chopin, Mozart, talvez Grieg, amava Grieg. Um suicídio marcante. Algo que depois virasse um conto, uma prosa recheada de dramas, dores, angústias, frustrações... Um grande poema talvez. Roteiro para um filme, novela. Quem sabe?! No caminho para o campo de girassóis, um corredor de lírios, muitos lírios. Transeunte algum cruzaria o seu caminho. A via seria unicamente dele, como se ele fosse o dono do mundo naquele instante. Estaria bem alinhado, barba feita, perfumado. Cruzaria o grande corredor numa antiga bicicleta. Levaria no bolso um bloquinho de papel, uma caneta de ponta fina e duas balas finas de café. Num pequeno alforje, uma adaga afiada que seria usada no momento fatal. Ele visualiza cena por cena. Um roteiro minucioso. Devidamente calculado. Diante do grande espelho, estala os dedos e as imagens desaparecem como num truque de mágica letal. Sorrir ironicamente enquanto esfrega uma mão na outra, franze o cenho, abre a gaveta de uma pequena escrivaninha, desembainha uma linda adaga japonesa e agenda o ato fatal.

- Amanhã, às três da tarde, no campo dos moinhos, diante da alma amarela dos girassóis.

Radyr Gonçalves
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