Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

Solidão ou minha biografia cabe num simples haicai


Solidão, esse escafandro de aço que visto. Esse profundo mar de pequenas coisas insignificantes. Pequeno quarto de descomunais significados. Conheço de cor o costume dos pescadores noturnos, as pragas dos mochos, o ensaio do choro afinado das carpideiras, a maldição da licantropia. Eu também sou meio bicho, meio lobo. Eu também enlouqueço nas noites de lua. Todos os homens têm uma grande história para contar. Uma biografia rica de detalhes. As tristezas e angústias dos outros dariam um grande filme... Toda a minha vida cabe num simples haicai japonês, um artesão das palavras talvez conseguisse construir um soneto com os fragmentos pobres dos acontecimentos da minha vida. Mas tenho certeza que de um soneto não passaria. Sou apenas um solitário que conhece as constelações, o mapa das marés e os horários dos trens. Ser solitário significa conhecer bem as montanhas, os rios, a poesia. A leitura é o ópio de um homem solitário. A solidão nos brinda com certos poderes que beiram o sobrenatural. A metafisica é um portal para o conhecimento interior. Apenas um baixo muro separa o conhecimento interior de um quarto branco de um manicômio. A solidão é assaz proveitosa para quem tem uma alma desbravadora das coisas incorpóreas. O mundo como vemos da janela soa pobre para quem procura pistas obscuras em dimensões que parecem estranhas aos homens comuns.

Solidão, essa cabana furada, essa busca pelo tudo, essa luta por nada, essa confusão de algoritmos, esses signos sem significados aparentes. Esses tantos caminhos. Conheço de perto as estações. A boca vulcânica do verão, o desalinho do outono, a insensatez do inverno, a promiscuidade da primavera... As lutas das virgens, os conflitos das mulheres, o sentimento dos homens. O ser humano tem ojeriza da solidão. A solidão tem cara de morte, amiúde. A solidão é um bicho, uma doença maligna, um nevoeiro infernal, assim pensam.  Não conhecem a solidão, de fato. Essa entidade silenciosa, musical, aberta as cores, aos mundos, as resoluções. A solidão é a mãe das artes, das atitudes, dos fenômenos mágicos que transformam as almas. A solidão é a única embarcação capaz de tirar o homem da ilha do si mesmo. É a solidão que me faz enxergar minha pouca história, meu pouco de mim. Sem ela, eu talvez acreditasse que eu caberia num imenso livro cheio de bobagens, mas a solidão me ensinou que nada sou, e caibo em qualquer haicai de guerra ou de paz, aí depende da visão do autor.

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Radyr Gonçalves
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