Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

Sem saída - Maria Augusta de Carvalho


Presa neste cômodo amarelado de domingo
Sem as chaves do tempo sem as travas do destino
Nua dentro deste redemoinho louco de imagens
Tanto que eu queria um jardim um naco de paraíso
Uma esperança azul uma vereda aberta

Vago nos pavilhões pálidos deste domingo pálido
Cômodo infernal sou o quadro do desespero
Tenho silenciado dezenas de gritos que pululam aqui dentro

Tantos jornais não lidos documentos, recibos
Informações desnecessárias espalhadas
Poeira no telhado, lixo na calçada, ideias vencidas

As imagens nas paredes já não dizem nada
As cortinas já não dançam o vento cessou
Cessou a música fria da brisa que vinha da praia
Minha vida parou diante da imensidão incolor deste vazio

Estou perdida neste vão disforme de um domingo
E estarei perdida no quarto escuro de uma segunda-feira
Na monotonia descolorida da terça-feira...
Estarei presa todos os dias, para sempre perdi as chaves de mim.

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SEM SAÍDA
MARIA AUGUSTA DE CARVALHO

Maria Augusta de Carvalho  é um heterônimo de Radyr Gonçalves


Comentários

Lena Ferreira disse…
Excelente. Uma viagem espetacular! Parabéns. Pelo texto e pelo espaço. De fino gosto. Um beijo.