Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

Singularidades de um não roteiro - Radyr Gonçalves


O fim de tudo não cabe dentro de uma cena colorida de um filme de Almodóvar
Um desfecho desordenado – um caos paradisíaco
Um paradoxo louco

A câmera segue lenta em um corredor infindo
Os homens obesos de si mesmos não cabem em um conto de Eça de Queiroz
Nem nas letras imodestas de Clarice
Nem no mundo absurdo de Alice
Os homens não cabem em si

O fim apocalíptico dentro de uma analítica lente
O homem mente – o homem finge – e não sente
O coração mergulhado na desgraça comum

No fim do corredor há um inferno imenso
Uma caldeira descomunal – acessos mil para o umbral
Mulheres raquíticas engolem umas as outras
Uma virgem dilacerada chora no pé da calçada
A histérica virgem não cabe numa prosa boa
Não cabe na cena de um filme de Peter Weir

O fim de tudo não cabe dentro de um garimpo de uma novela de Janete Clair
O caos mental – a desordem urbana – a mortandade rural
O bem e o mal não cabem na oração do Dalai Lama

As coisas da vida são muito grandes para caberem em pequenos dramas
A morte é que é pequena
A morte cabe em sete palmos do chão, meu amigo.

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Radyr Gonçalves
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