Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

Cirandeiro Sabático - Radyr Gonçalves


I

Cavalos galopam trôpegos em um carrossel enlouquecido
Sábado entre abrolhos de abril – faróis apagados, bangalôs assombrados...
Enormes macacos tristes choram diante da floresta queimada
O homem já não chora mais – a sensibilidade é uma rocha caótica

II

Diante da luz amarronzada do abajur noturno – a vida segue crua
Ouvirei as filosofias das mariposas desencantadas: a morte é um cigarro queimando apressado
O perfume das alcovas é o perfume de pequenas rosas escravas

III

A poesia que enche as nuvens de chuva sempre teima em fugir do sertão
A gaiola das privações – a fome sertaneja – a dor sertaneja – o mandacaru deprimido
A silhueta de um verso escondido – a sombra de uma casinha branca
O galo pedrês – carijó – o homem só – o dó de uma canção desafinada
A viola violada – o alpendre vazio – o cachorro vigilante – o livro na estante
A leitura morta

IV

A cena urbana do outro lado da página – a angina agoniada – o trema morto, o trauma torto – a psicanalise sem base – a holística do reino das formigas
A ruptura, o homem, o pecado, o vício, a margarina, a gordura
A pele esponja, a alma esgotada dos homens nas calçadas
E o desespero de um relógio neurótico engasgado com o tempo

São Paulo
São Bento

Socorra-nos!


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Radyr Gonçalves
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