Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

Comichão


Esse indescritível comichão que nos faz escrever
É dom? Praga?
Crédito ou paga?
Ou tão somente mania...

Diria alguém que é algo místico
Diria outro ser algo rústico – nato
Outro diria que vem do mato
De Vênus, de Japecanga, do Crato
Mas isso não vem de lugar nenhum

Tiras e tiras de celuloides são imortalizadas todos os dias
Com a avaria da ociosidade impressa
Há quem deseje ser famoso escrevendo com pressa
(Vai vendo – isso não é pra qualquer um, nem para quem escreve melhor)
Vender letras é fruto do marketing

Quem escreve não escreve apenas por escrever
Escreve para se livrar de um peso
Para exorcizar o encosto
Macerar os demônios
Minorar a loucura
Exibir a ferida tatuada no peito
Mostrar aquela coisa sem cura

Diria alguém que isso é vida
Diria eu que isso é prisão
Eco divino
Cisma do Cambrulhão
Dedo da mãe de Pantanha
Assombração, coisa estranha
Comicho da mente na mão...

-
Radyr Gonçalves 
 © 2016 Todos os direitos reservados