Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

Sarau de um homem só






Bicho que sangra

Aquele que recita dores para os pirilampos

Que corre com as bestas nos campos

Que não sofre de solidão



Que desvenda veredas

Reforça moinhos

Destroça mil barcos

Refaz bem o vinho



Livre passarinho

Preso em gaiola inventada



Fantasma encantado

Poeta que nem poeta é



Aquele que cria borboletas

E prolonga primaveras



Que doutrina a lua

E verseja as retinas do sol



Animal não alcoólico

Ponderado, metódico

Que guarda dores e cria lindos mosaicos líricos



E junta cacos de choros

E junta fatos de livros

Que voa livre em versos

E que sabe que vai morrer poetizando sandices



Bicho que cheira a mato

Que late com os cachorros

Que mia como um gato



Que na solidão de um palco

Recita um único poema criado



Um poema triste, amargo

Que dá dó



Num sarau de um homem só.

-
Radyr Gonçalves