Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

Desarranjos Noturnos



Ouça, moça:
O acorde do meu choro
E o cantar desafinado dos tetéus

Chorar de noite é mais que chorar no escuro
É plainar por entre as velas feito um pernilongo louco
É morrer pouco a pouco no mar morto das lágrimas
E ouvir o burburinho dos trovões do silêncio

Quando o silêncio faz chover é triste
A depressão de um carvalho é um castigo
Trago comigo a sina de regar calado o medo noturno
E negar as raposas meu ser taciturno
E fazer parecer um girassol fascinado

Ouça, moça:
A nota desarranjada do meu soluço
E a sinfonia amarga de um mocho coxo

Carpir a poesia despejada em chão empoeirado é dilacerante

Não sinto o cheiro do perfume das deusas
Nem o sabor do fruto primaveril

Quando a tempestade quebra as teias da quietude
O homem despeja-se no desespero da loucura

E grita – e ninguém escuta
E chora – e a dor não minora

E apega-se as cordas do silêncio impenetrável
Onde não há chuva, não troveja, e não há ninguém que veja os sulcos da dor...

E faz-se necessário fingir – e sorrir da janela – e desenhar um sol no chão...

Para maquiar a tristeza, a solidão. E seguir a vida.

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Radyr Gonçalves