Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

Poesias Engaioladas e outras formas de prisões


Morri,
Ascendi num lugar lúgubre, tristonho,
Eu sou um pássaro engaiolado,
Lendo repetidamente J.D. Salinger

Estou pendurado num galho de carvalho,
Aqui não tem sol, nem chuva, nem orvalho,
Aqui não tem barulho, apenas meu canto,

A luz incandescente deste lugar queima-me as retinas,
Estou fragilizado, doente, histericamente silente,

Ao longe moças banham-se num lago colorido,
Velhos pescadores sobem a colinha rumo a uma velha aldeia,
Índios dançam ao som de um batuque inaudível,

É horrível o inferno deste lugar,

Minha gaiola tem três cômodos,
Não há brisa, não há relógio, o tempo aqui é quieto,
Terrivelmente entediante,

Um louco faz pantomimas diante de um espelho quebrado,
Uma mulher nua, aparentemente bêbada, esfrega-se nas árvores,

Um espantalho reza na solidão do milharal,

Queria fugir, mas a gaiola é de aço,
Queria partir, depois do carnaval, no inicio de março,

Mas não há datas aqui,
Não se contam os dias, nem os meses, nem os anos, nem as horas....

E agora?

Estou preso nesta gaiola, nesta poesia,
Morto,
Sem ter por que rogar, sem ter como fugir,
Sem comer, sem beber, sem recreio,
Enlouquecendo,

Como o Apanhador no campo de centeio.