Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

O mocho cantador (A fortuna)


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Radyr Gonçalves
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Poesia de marfim,
Adornada de ouro,
Enfim,
Fortuna sem fim,
No sim do meu querer

A canção cantada pelo Frei, em latim,
Carmita Burana,
Assombra,

Há sombras nas paredes brancas,
E um mocho albino cantando um hino:

Não tenha medo da fortuna,
Do grão do centeio, do ouro, dos músculos do dinheiro,

Não tenha medo do castelo que agora se abre,
Das portas em maciço ouro extraterreno,
Nem da constelação de ninfas que lumiam o rio transparente,

Não tenha medo das teias de prata,
Nem das maçãs lavadas em liquido diamante,

A fortuna assombra,
A fortuna compra o sorriso lunar,
Compra a gueixa, a Sulamita andeja,
A prostituta cor de sol,
A mulher dos seios de primavera,

Mas não tenha medo dos lagos que se abrem,
Nem dos céus que descem ao teu mandar,

Não tenha medo dos ventos do ventre de Anastácia,
Nem do banho divinal com Romanée-Conti,

Vá, guarde toda essa riqueza em baús de Mogno Africano,
E saia para respirar...

Sente-se na beira do lago,
Sinta a terra, os grãos, o pó,
Sinta o cheiro da morte,
E devote sua fortuna a ela...

E agora com o mocho cante:


 Ó fortuna
Velut luna
Statu variabilis,
Semper crescis
Aut decrescis;
Vita detestabilis
Nunc obdurat
Et tunc curat
Ludo mentis aciem,
Egestatem,
Potestatem
Dissolvit ut glaciem.


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