Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

MARIBONDO LEITOR



(Radyr Gonçalves)


Um maribondo caboclo lia Drummond,
Tantas pedras, tantos Josés, tanta Itabira...

Lê ao som de Adriana Calcanhoto...

Cadê aquela visão paradisíaca?
Cadê aquele ar primaveril?

Não há discos voadores em setembro...
Eu fico vendo o maribondo leitor e reflito:

Seria o grito da natureza cobrando-me algo?
Se um maribondo pode lê?
Por que não posso encarnar Neruda?

Medito ao som da brisa lasciva; faz bailar a bandeira nacional,
Levanta o vestido da moça,
Cutuca a saia da outra,

Não há virgens depois do meado do ano...
Ficaram lá trás, ainda no São João...

Cadê o cheiro do perfume ``ninfático``?
Cadê o caldo dos deuses?

Nada há de novo que eu possa gozar...

Nada de novo há...

Há não ser o fato de vê um maribondo lendo Drummond,
(Com um olho no livro outro no Jornal Nacional).

Mundo, mundo vasto mundo,
Se eu me Chamasse Raimundo,
Tinha casado com Ellen e seria prefeito da cidade.

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