Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

Clock, o reloginho solitário




Clock era um reloginho despertador que morava numa velha cômoda de um quarto de um velho solitário e ranzinza. Clock era só, assim como o velho. Clock não tinha com quem tirintintim. Clock era só; não tinha vizinhos, não tinha parentes, nem aderentes, não tinha amigos com nomes de Plock, Block e Rocket.
Clock era apenas só. Ele ficava de olhos arregalados espiando os astros que cintilavam nas negras noites que teciam sua vidinha de relógio. Clock era só. Sonhava em ser útil. Sonhava em ouvir alguém pronunciar seu nome: - CLOCK!
Sonhava em ter amigos com nomes de Plock, Block e Rocket.
Clock era só. Colecionava as horas do passado. Ficava vendo o presente acenando da janela e o futuro já consumindo os seus minutinhos.
Clock era só.
Sem Plock, sem Block e sem Rocket. Clock era um relóginho comum que o velho ranzinza ganhou num sorteio. O velho nunca dera importância ao relóginho despertador que numa fria manhã de inverno marcou as horas da sua morte: 9:45

Clock nem sentiu falta do velho ranzinza. Afinal de contas, Clock estivera sempre preso naquele quarto, em cima daquela cômoda empoeirada. Sem mimos, carinho, sem atenção nenhuma. Sem Plock, sem Block e sem Rocket.

Minutos foram, minutos vieram
Horas foram, horas vieram
E numa manhã quente de verão o coraçãozinho de Clock parou. Precisamente ao meio dia. E ali, naquela triste e empoeirada cômoda morreu. Com o tempo se desfez em ferrugem. Com mais tempo em pó. Sem ninguém a prantear. Sem ninguém pra deixar saudades. Sem ninguém para tocar um último trim. Sem parentes nem aderentes. Sem Plock, sem Block e sem Rocket, que nunca existiram.


Radyr Gonçalves
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Lido em diversos Saraus pelo mundo a fora.

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