Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

Diário de Belinha - A Cuca e o Di Caprio


Fiquei horrorizada hoje à tarde quando vi no supermercado uma mulher horrorosa de mãos dadas com um homem lindíssimo. Os pacotinhos de cereais racharam pasmados. A bruaca tinha um cabelo mais embaraçado que já vi nessa vida. As pernas pareciam duas varas de pescar. A boca era um risquinho no meio daquele rosto que parecia ter sido massageado pelo Maguila. Quase tenho uma trombose quando o gato tomou a baranga pelo braço e chamou de amor. Pensei comigo: Deve ser uma prostituta. Esse cara deve ter altas fantasias bizarras. Deve se chacoalhar de rir com uma criatura dessas gozando. Quase infarto. Eram casados. As alianças. O celular tocou e tive a comprovação. Ele falou todo meloso: É sua mãe, meu anjinho. A sogrinha mais linda do mundo. Ela deve ser filha da Cuca com o Minotauro. Ai, eu não compreendo. Estou indignada. Olha pra mim. Loira. Alta. Pernas torneadas. Corpo moldado. Pareço uma deusa de tão perfeita e o que me aparece de paquera? O leiteiro maneta. O padeiro banguelo. O pastor caolho. Um pedreiro gambá. E até dentro da minha segunda opção sexual só me aparece castigo: A obesa da pastelaria. Malho quase vinte quatro horas. Uso mil e um cremes. Me perfumo toda. Me visto perfeitamente. E como uma baranga daquelas consegue conquistar um homem lindo daquele e eu não? Parece cômico, mas que inveja daquele tribufú. Toda desmanezelada, mas com uma sorte... Ela devia jogar na loteria. Ganharia toda semana. Afff! Essa cena acabou de vez com cada gota da minha estima. Que inveja! Que ódio! Vou me benzer ou fazer uma dessas correntes de igreja neo-pentecostal. Já passam da meia-noite, vou tentar dormir senão as olheiras saem das suas trincheiras e atacam as bordas dos meus lindos olhos. Com todo esse produto não tenho sorte.

Radyr Gonçalves
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