Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

Agente reciclador




Encaixou o gancho no cabo, apertou firme, colocou o bisaco nas costas e saiu. Cinco para meia-noite. Nem o céu pálido, carregado de nuvens, pode deter Nino. Tem contas pra pagar e festa no Petiskão no final de semana: Tem que arranjar dinheiro. Ainda por cima, a mina ta grávida de sete meses e já não pode vir no expediente da noite. Ela pega das seis às dez da manhã. A barriga já pesa. É o quinto rebento. Mas desta vez ela vai fazer ligação. Um candidato a vereador falou que deixasse por conta dele. Nino é valente, guerreiro, otimista. Pensa em abrir seu próprio depósito. Mas nesse ramo, mano, o cara tem que ser mafioso! Mas inda assim, Nino sonha. Sonhar não paga. Ano passado comprou uma casinha na favela do Fio. Tá ajuntando dinheiro para comprar uma mobilete. Já mobiliou todo o quartinho de Rosirene, que já salta na barriga acostumada da esposa. Quer progredir, avançar, oferecer para os filhos uma vida melhor, um mundo mais amplo. Esta noite o aterro está deserto. Os companheiros temeram o frio. Nino não. No deserto de lixo Nino olha para o céu e recita uma prece de gratidão.

- Deus, obrigado por olhar por este lixeiro!

- Lixeiro não, meu filho! Agente reciclador, por favor!

Disse Deus no coração daquele pobre sofredor.

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