Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

ESTIGMAS





Fios de poesias me enlaçam nesta tarde ensolarada. Eu vejo o amor no prisma de um vitral na santa capela. Não pense no amor como algo sofrido. Pense no amor como um parto. O amor é um misto de vida e quase morte. Não cabe nas digitais da minha alma tanto sofrer por amor. Mas eu notei que estas cicatrizes são belos mosaicos artísticos que a vida teceu aqui dentro. Hoje entendo bem mais de flores e versos. Hoje quando vejo um colibri a namorar uma primavera vermelha vejo Deus. Não entendia nada de ornamentos e perfumes. O amor me deixou suave. Leve. Embora breve, às vezes, o amor é curativo. Eu tenho aqui no meu peito um estigma que lateja dia e noite. Me faço de Jó pra melhor passar. Nesta tarde ensolarada eu olho o vitral da capela de São Camilo de Lellis e me sinto perdoado, mas suplico um milagre maior. Eu sinto o latejar renitente da minha ferida aberta. Eu choro, imploro um milagre, mas o céu silencia. Mas eu sou belicoso, tenho alma aguerrida. Noutra tarde volto aqui para tecer rezas, quem sabe o santo se compadeça e me valha...

Fios de poesia me enlaçam nesta tarde.

Radyr Gonçalves

Comentários