Ainda sobre o amor ♦ Radyr Gonçalves

SOLIDÃO DOMINICAL





O passado nesta fotografia parece uma cena de cinema antigo. Lembrei de um dos primeiros beijos que dei num verão dos anos noventa. Uma gaivota lá no fundo da paisagem voava solitária como se predissesse o apocalipse da minha solidão futura. O mar, azul pálido, destoava do azul alegre do céu daquele domingo fervente. Esta foto parece mística. Tem tantos elementos no seu pequeno diâmetro que parece um pequeno mundo impresso. Meu pequeno mundo de papel. Tem um choro embutido nesta fotografia. As pedras de Areia Preta pareciam búzios jogados à sorte a predizer minhas linhas. Eu vi solidão, cama vazia. Eu vi flores deixadas, alianças jogadas. Notei lá no fundo o sorriso frio do sol. Aquele beijo, aquela saliva mareada, aquele falta de sentimentos, ficaram registradas neste papel tão sem significado, mas tão cheio de lembranças que hoje montam o quebra-cabeça da minha solidão dominical.


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Radyr Gonçalves

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